Depois de pedir demissão da empresa onde trabalhei por quase cinco anos, depois de receber um diagnóstico de burnout e bem no momento em que estou fazendo 30 anos, uma pergunta não sai da minha cabeça: E agora?
Como lidar com o desemprego e o burnout?
Sim, é verdade que essa decisão foi minha, mas isso não significa que ela tenha sido fácil. Muita gente imagina que pedir demissão é sinônimo de alívio imediato — Em alguns momentos foi — Mas também significou abrir mão da estabilidade financeira, da rotina que eu conhecia e, principalmente, de um trabalho que eu amava.
É claro que existiam dias em que eu detestava tudo: As pessoas, os problemas, as reuniões, a quantidade absurda de demandas. Mas, na maior parte do tempo, eu gostava de criar, de resolver problemas, da liberdade do trabalho remoto e do reconhecimento que recebia pelo que fazia.
Só que, aos poucos, tudo começou a desmoronar.
Quando notei que o esgotamento chegou já era tarde
As demandas aumentaram até que jornadas de dez horas se tornaram comuns, o tempo médio diário em reuniões chegava a 6,5h e as mensagens se tornavam absurdas, em 15 minutos chegava a receber mais de 20. Mesmo assim, eu seguia acreditando que todo aquele esforço faria sentido, acreditava que ainda existia espaço para crescer. Mas esse sentimento mudou quando a empresa contratou uma pessoa para assumir uma gestão que, na prática, eu já exercia havia alguns anos.
Durante mais de um ano, vi alguém que não conseguia aprender o trabalho, dormia durante treinamentos, fazia comentários problemáticos ocupar uma posição de liderança.
Depois fui transferida para outro setor, "um novo cliente fará bem a você" foi o que eles disseram, e mais uma vez, precisei treinar quem seria minha própria gerente.
No começo, tentei acreditar que seria diferente, mas vieram as pequenas situações que, somadas, se tornam gigantes. Descobri que minha gerente mentia para nosso gestor e, em alguns momentos, mentia até mesmo sobre o meu trabalho — foi quando meu corpo começou a dizer aquilo que eu insistia em ignorar.
Depois de sete dias de afastamento por questões psiquiátricas, voltei ao trabalho e consegui permanecer bem por exatos nove minutos até que veio outra crise de ansiedade. Naquele momento, percebi que continuar custaria muito mais caro do que sair.
E pedi demissão.
Talvez, lendo apenas essa parte da história, seja difícil entender como ainda consigo dizer que amava aquele lugar, mas a vida raramente é feita apenas das piores lembranças, foi naquela empresa que fui reconhecida diversas vezes e fiz amizades que quero levar para a vida toda. Durante muito tempo eu dizia, brincando, mas nem tanto, que, se ganhasse na loteria investiria naquela empresa.
Era um lugar importante para mim, e talvez seja justamente por isso que ir embora tenha doído tanto.
Mas essa história não é sobre o que aconteceu lá, é sobre o que acontece depois.
O momento depois da demissão
Ninguém ensina como reconstruir a própria identidade quando você passa anos acreditando que seu valor está diretamente ligado ao seu trabalho, durante quase cinco anos, minha rotina tinha um roteiro pronto, agora ela não tem mais, durante anos, meu salário dizia quem eu era e agora ele não existe mais.
E como se isso já não fosse suficiente, tudo isso aconteceu justamente quando estou entrando na chamada "crise dos 30", hoje me pego questionando coisas que antes pareciam óbvias.
Será que fiz as escolhas certas?
Será que ainda posso gostar das mesmas coisas?
Será que existe roupa "adequada" para alguém de 30 anos?
Será que eu deveria estar em outro lugar da vida?
A verdade é que não tenho respostas, só tenho uma sensação: Minha vida hoje parece uma tela em branco.
Não uma tela completamente nova, se você olhar contra a luz, ainda consegue enxergar as marcas do desenho anterior, as linhas continuam ali, os traços existem. Mas ainda não sei se vou pintar por cima, fazer uma colagem, bordar outra história ou simplesmente começar um desenho novo.
Talvez este blog seja justamente esse processo, um lugar onde vou registrar a reconstrução de quem eu estou me tornando, sem promessas de fórmulas prontas, sem discursos motivacionais, só a tentativa honesta de descobrir quem eu sou quando o trabalho deixa de ser minha identidade.
Esse é o primeiro capítulo dessa nova fase.
Se você também está tentando se reencontrar depois de uma mudança, de um burnout, de uma perda ou simplesmente porque a vida resolveu mudar de direção, espero que encontre companhia por aqui.
