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Existe uma coisa sobre crianças "fortes" que ninguém te conta

Durante muito tempo, sobreviver pareceu prova suficiente de que estava tudo bem. Aos 30 anos, um laudo me fez olhar para aquela criança que um dia eu fui e para a adulta que me tornei de um jeito diferente.

23 de agosto de 2026 · 7 min de leitura

Existe uma coisa sobre crianças "fortes" que ninguém te conta

Minha infância acabou, mas as consequências dela não

Por muito tempo, achei que ter crescido, estudado, trabalhado e seguido em frente era a prova de que estava tudo bem. Aos 30 anos, descobri que sobreviver a uma infância não significa necessariamente sair ilesa dela.

O que acontece com uma criança forte?

Ela cresce. E, quando cresce, é muito fácil olhar para ela e pensar que ficou tudo bem, afinal, a criança cresceu, estudou, trabalhou, construiu relacionamentos, conquistou coisas, riu, fez planos e continuou seguindo em frente e hoje é um adulto com suas coisas de adulto para fazer.

Então essa infância não deve ter sido tão ruim assim, certo? Ser forte fez ela ser quem é hoje.

Eu tinha esse mesmo pensamento, "tudo o que eu vivi me fez ficar mais forte — fez eu ser melhor". Isso até eu chegar aos 30 anos e receber um laudo neuropsicológico que, de alguma maneira, colocou no papel coisas que passei uma vida inteira tentando entender.

Sobreviver a uma infância não é o mesmo que sair bem dela

Uma criança não precisa deixar de comer, estudar ou brincar para estar sofrendo, a mente de uma criança é um mundo particular.

Ela pode continuar indo para a escola e tirando boas notas. Ela pode chegar em casa e brincar de boneca, imaginar o que será quando crescer e sorrir para as fotos.

Mesmo assim, ela pode estar aprendendo coisas sobre si mesma que nenhuma criança deveria precisar aprender: que pode ser abandonada, que o amor pode desaparecer, que precisa corresponder às expectativas, que sentir demais incomoda outras pessoas, que se sentir mal é "frescura" e chorar é exagero.

Quando uma criança continua funcionando apesar de tudo, é muito fácil confundir adaptação com ausência de sofrimento. Ela parece bem, mas talvez esteja apenas aprendendo a sobreviver com aquilo que tem.

A criança cresceu e o que aconteceu com ela também

Durante a maior parte da minha vida, várias características simplesmente pareciam fazer parte de quem eu era.

  • Desistir fácil demais era na verdade uma maneira de não sentir cansaço ou evitar me aborrecer com coisas que eu não via valor;
  • A impulsividade me ajudava a acreditar que as coisas na minha vida só aconteciam quando era feito sem pensar;
  • Sentir as coisas de forma mais intensa do que a maioria das pessoas a minha volta e "deixar" que as pequenas coisas me desestabilizem de uma maneira que nem eu consigo compreender, fazia parte da minha intensidade;
  • Existem períodos em que quero fazer tudo e outros em que encontrar motivação para aquilo que eu amo parece impossível, a frase "sou de lua" fazia com que esse sentimento fizesse sentido.

E uma das coisas que mais tem me doído é perceber o que fiz esse tempo todo: como não entendia o que acontecia dentro de mim, comecei a transformar os sintomas e dificuldades em falhas de caráter.

  • "Eu sou preguiçosa."
  • "Eu sou dramática."
  • "Eu sou difícil."
  • "Eu deveria conseguir controlar isso."
  • "Por que todo mundo consegue simplesmente fazer e eu não?"

No final, a culpa encontrou espaço onde falta explicação.

Aos 30 anos eu recebi um laudo

Depois de muitos problemas na minha vida pessoal e profissional, de diversos diagnósticos por "achismo" feitos por psicólogos e psiquiatras e tomar diversos remédios que resolviam o problema por cerca de três meses, eu procurei uma avaliação neuropsicológica para entender melhor como minha mente funciona.

O resultado trouxe coisas que eu já esperava mas que foram muito difíceis de assimilar. Apesar de já imaginar o resultado, eu ainda mantinha o pensamento de que a culpa era minha, de que no final tudo isso poderia ser só uma "frescura" e eu de fato fosse uma pessoa ruim, difícil de lidar e exagerada.

Com o laudo, descobri que existe muita coisa "boa" em mim: minha inteligência e minha memória estão bem, capacidade de planejamento e diversas funções cognitivas funcionando dentro ou até acima do esperado.

Mas o mesmo documento que mostra tudo aquilo que minha mente consegue fazer também registra onde estão algumas das minhas maiores dificuldades, que são critérios compatíveis com Transtorno de Personalidade Borderline (CID-10: F60.3 / CID-11: 6D10) e Transtorno Bipolar tipo II (F31.81).

Foi estranho ver tudo aquilo escrito, um misto de alívio por finalmente saber exatamente o que tenho, misturado com a raiva de saber que, apesar de já ser geneticamente propensa a desenvolver o transtorno, a minha infância pode ter contribuído drasticamente para esse laudo. De repente, as características pelas quais me culpei durante tantos anos deixaram de existir apenas naquele lugar abstrato do "eu sou assim", agora havia algo para investigar, tratar e compreender.

Claro que isso não significa que um diagnóstico explique toda a minha personalidade ou muito menos que determine quem eu sou, mas significa que talvez eu possa finalmente parar de interpretar toda dificuldade como uma falha moral.

Quem eu seria se tivesse crescido de outra maneira?

Imagina uma criança nascer sem saber o que é rejeição.

Ela ainda não sabe o que significa ser abandonada, desprezada ou sentir que sua existência incomoda, não sabe que amor pode vir acompanhado de medo.

A verdade é que existe uma violência muito silenciosa em fazer uma criança passar anos tentando sobreviver emocionalmente e, depois, cobrar dessa adulta que ela saiba naturalmente regular suas emoções, confiar nas pessoas, lidar com rejeições, encontrar motivação, controlar impulsos e simplesmente ser feliz, como se nada tivesse acontecido, como se o cérebro e o corpo não tivessem passado por tanta coisa em cada um daqueles anos.

Não acho que exista uma versão perfeita de mim esperando em algum universo paralelo, também não posso olhar para um diagnóstico e afirmar que foi culpa de outras pessoas. A saúde mental é muito mais complexa do que uma relação direta de causa e efeito.

Mas é fato que existe algo profundamente doloroso em perceber que experiências que os adultos conseguem minimizar podem acompanhar uma criança muito depois de ela deixar de ser criança.

O abandono não precisa continuar acontecendo para que o medo dele continue existindo. A rejeição não precisa acontecer todos os dias para que alguém continue esperando ser rejeitado. A cobrança acaba e, mesmo assim, você pode continuar sentindo que precisa provar seu valor.

As pessoas que disseram que era frescura podem nem lembrar mais do que disseram, mas quem ouviu pode carregar aquilo por décadas.

Apenas imagine quantas vezes essa criança precisou se adaptar ao que fizeram com ela apenas para continuar existindo. Talvez o que mais me assuste quando olho para tudo hoje seja pensar naquela criança que ainda não sabia de nada, que poderia ter aprendido que o mundo era seguro, que amor não precisava ser conquistado e que poderia ter aprendido que errar não significava perder o afeto de alguém.

Hoje eu posso pegar aquela criança pela mão

No final, receber um laudo aos 30 anos não muda minha infância, não devolve aquilo que faltou, não criou lembranças que nunca existiram. E definitivamente não respondeu todas as perguntas.

Mas alguma coisa mudou.

Hoje consigo olhar para aquela menina com um pouco menos de julgamento, quando penso nela, não quero perguntar por que ela era tão sensível, não quero perguntar por que era tão quieta que "parecia um bicho do mato", não quero saber por que não conseguia simplesmente ser melhor. Não quero perguntar por que ela precisou ser forte tão cedo.

Quero poder confortar e mostrar que ela pode "baixar a guarda", respirar sem medo e finalmente poder ser alguém que não precisa cuidar de nada ou ninguém, muito menos ser forte o tempo todo.

Hoje digo para ela que acredito nela e nas dores dela. Digo para ela que não precisa diminuir sua dor apenas porque alguém teve uma história pior, e que sobreviver foi importante, mas não precisa ser o objetivo para sempre.

Talvez eu tenha passado boa parte da vida aprendendo a sobreviver, e agora, aos 30, quero descobrir como é viver.

Porque eu sobrevivi.

Mas sobreviver nunca significou sair ilesa.


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