Meu cemitério de hobbies | As coisas que precisei abandonar

Às vezes algumas versões nossas são interrompidas, mas algo sempre permanece.

16 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Meu cemitério de hobbies | As coisas que precisei abandonar

Há em mim um pequeno cemitério de coisas que já fizeram parte de quem fui, cada uma com sua história, sua memória e os aprendizados que me deixaram.

O sentimento de deixar para trás aquilo que ainda gosta

Em algum momento você já sentiu que deixou para trás algo que gostava tanto de fazer mas hoje não se lembra mais o motivo? Pois é, acredito que ao menos uma vez esse sentimento vai passar pela vida de cada um.

Para mim sempre foi comum ter diversos hobbies, ver eles sendo formados, passar um tempo focada mas acabando por deixar de lado, seja por um motivo ou outro já se passaram pela minha vida a dança, fotográfica, colecionar itens de papelaria, colorir desenhos, bullet journal e tantos outros.

Mas nos últimos tempos esse sentimento se tornou mais nítido e presente. Recentemente não só me deparei com uma crise de identidade aos 30 anos, mas também precisei deixar meu trabalho que eu tanto gostava para trás por um burnout (inclusive, fiz um conteúdo que explico como sigo minha vida depois do burnout), e com ele veio junto a sensação de que nada mais me pertence.

O abandono imposto pela opinião de outra pessoa

Quando eu tinha por volta de 10 anos eu já fazia ballet, eu amava aquela dança, desde muito cedo fui impactada pelos filmes da Barbie, aquele mundo repleto de dança e música clássica, com roupas cheias de brilho e um mundo de magia, mas com o passar do tempo minha avó me convenceu de que eu não seria capaz de continuar as aulas, já que eu havia entrado em uma escola em que as aulas seriam pela manhã.

Pelo que posso me lembrar esse foi o meu primeiro abandono, não escolhido por mim, mas imposto por outro. Com apenas uma frase — Você?! Você não vai conseguir nem acordar cedo — todo o meu sonho, toda aquela magia desapareceu, a minha primeira lápide foi formada por uma decisão sobre quem acreditamos ser, imposta por outra pessoa.

Não sei se abandonei o balé porque não conseguiria acordar cedo ou porque alguém decidiu isso por mim antes que eu pudesse tentar, mas era uma escolha minha, em troca, o que adquiri foi um sonho incompleto e um impacto de longa data acreditando que eu não seria capaz.

Conforme cresci as minhas decisões foram baseadas em segredo, tudo que eu planejo não é contado a ninguém até que o projeto já esteja mais concreto, só assim eu posso confiar que realmente irá dar certo.

O hobby que dava prazer começou a exigir energia

Eu tenho muitas memórias colorindo aqueles livros infantis, adorava colorir principalmente com canetas glitters perfumadas. Depois, quando mais velha, já adulta, alguns livros fizeram sucesso, eu amava ter caixas cheias de lápis de cor, criar efeitos e estudar as cores.

Hoje eu já nem me lembro mais quando foi a última vez que colori algo, que mexi nos meus lápis com aquela alegria em ver as cores. Agora tudo virou cansaço, pegar o estojo, o livro e escolher as cores demandam tomadas de decisões que são simples para qualquer um, mas para mim exigem uma energia que hoje não tenho mais.

A saudade por trás do abandono

Como se já não bastasse essa saudade também tenho o sentimento de tristeza, afinal eu já cheguei a ter mais de 250 lápis de cores, algumas coleções me desfiz, outras estão enfurnadas no fundo do baú, as vezes vejo meus livros pela estante e imagino como seria te-los preenchidos de cores, mas o sentimento de não pertencimento retoma e ganha todo espaço.

No final são duas saudades para lidar: A saudade da atividade e a saudade da versão de mim mesma que existia na arte de colorir.

Bullet journal: O abandono mais recente

Durante muito tempo quis cadernos diferentes para criar o bullet journal, como "a louca da papelaria" que eu era, o bujo era um espaço em que eu conseguia unir desenho, escrita, colagens e a minha rotina. Por mais de 7 anos reuni diversos cadernos com os registros de rotina de trabalho, poemas, desenhos e muitas fotos um pouco de mim está em cada um deles.

Mas desde Março/26 ele está parado, em cima da minha mesa, junto de todo material que eu costumava usar, visível e de fácil acesso, mesmo assim sinto que não tenho nada para preencher ali, afinal o sentimento mais real que tenho é o vazio.

Eu devo confessar que não sei se quero uma maneira nova de usar o meu diário, eu ainda gosto de tudo que eu fazia, de certa forma ainda me identifico, a diferença agora é que nada parece fazer parte suficiente de mim para que possa fazer sentido estar lá.

O que ainda mora em mim?

É um fato que alguns dos meus hobbies se foram, mas nada impede que voltem.

  • O ballet ainda me trás o gosto pela dança, a paixão por um mundo de histórias contados através de tantos movimentos que demandam tanta precisão;
  • Colorir fez com que eu enxergue além das cores, hoje gosto de olhar para o mundo e perceber as combinações mais variadas;
  • O bullet journal me ajudou a encontrar histórias no que é rotina, a querer salvar momentos em um lugar que não depende de likes, a principalmente esvaziar a mente e acalmar o coração.

E isso tudo me faz pensar: Eu realmente deixei de amar essas coisas ou apenas deixei de ter espaço para elas?

Eu não posso voltar a ser quem fui

Eu não sou mais uma criança que vê na dança um refugio mágico, ou então uma jovem adulta que chega em casa do trabalho e tem uma mistura de cores na mente e transmite para o papel, nem mesmo sou aquela de meses atrás, que colocava no caderno toda a sua essência.

Eu sou apenas alguém tentando se reerguer depois de uma tempestade que me arrasou e levou de mim tanta coisa que fez com que o mundo parecesse mais vazio.

Talvez eu não precise voltar a ser exatamente quem fui, talvez também não precise desenterrar todas essas antigas paixões e obrigá-las a viver novamente. Por enquanto, quero apenas reconhecer que elas existiram e que ainda existem em algum lugar dentro de mim.

Aquele pequeno cemitério não guarda somente coisas que morreram, ele também guarda provas de tudo o que fui capaz de amar um dia.


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